Os cálculos que Flávio faz para ainda não ter “jogado a toalha”

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Os cálculos que Flávio faz para ainda não ter “jogado a toalha”

Por trás da disputa contra Lula, o maior desafio de Flávio Bolsonaro pode estar dentro da própria direita.

A escolha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para liderar a candidatura presidencial do campo de Bolsonaro em 2026 abriu uma nova fase na disputa política nacional. Se por um lado o parlamentar passou a ser o nome oficial do grupo liderado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, por outro, enfrenta resistências crescentes de setores que sempre estiveram ao lado do bolsonarismo.

Nos bastidores de Brasília, a avaliação predominante é que o cenário inicialmente considerado ideal para a direita seria uma candidatura ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Pesquisas e análises eleitorais indicavam que Tarcísio tinha mais condições de expandir o eleitorado conservador e disputar o Palácio do Planalto em um ambiente considerado amplamente favorável à oposição.

No entanto, pesou muito a percepção dentro do núcleo Bolsonaro de que, uma vez eleito, Tarcísio não garantiria proeminência política à família Bolsonaro. Integrantes do grupo lembram que, durante seu governo em São Paulo, o governador não abriu espaço significativo para a ala mais fiel ao ex-presidente e manteve relacionamento institucional com o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, figura frequentemente criticada por apoiadores de Bolsonaro.

Eduardo Bolsonaro era visto como uma alternativa natural, mas sua situação jurídica acabou inviabilizando esse caminho, segundo avaliação do grupo político ligado ao ex-presidente. Com isso, Flávio passou a ser a opção disponível para manter o controle político da candidatura dentro da família Bolsonaro.

Mas é justamente o seu perfil que causa desconfiança em parte da direita.

Embora Jair Bolsonaro e Eduardo sempre tenham construído suas imagens sobre um discurso fortemente ideológico, aliados e adversários descrevem Flávio como um político pragmático, acostumado a negociações e ao diálogo com partidos de centro. Nos corredores de Brasília, ele é frequentemente destacado como o membro da família com maior capacidade de articulação política tradicional —característica vista por alguns como uma qualidade, mas interpretada por outros como um afastamento das bandeiras que impulsionam o bolsonarismo desde 2018.

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A antiga polémica em torno do caso das chamadas “rachadinhas” já representava uma tensão política significativa. Contudo, interlocutores de direita acreditam que um episódio mais recente agravou a crise de confiança.

O caso envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, ganhou repercussão após a divulgação de um áudio em que Flávio Bolsonaro solicita apoio financeiro para um filme sobre Jair Bolsonaro. O episódio passou a ser interpretado, por integrantes do próprio campo conservador, não apenas pela solicitação de recursos em si, mas principalmente pela divergência entre as declarações públicas anteriores e o conteúdo revelado posteriormente.

Entre os líderes de direita, a opinião é que o desgaste resultou mais do tratamento político do episódio do que do pedido de financiamento em si. Nos bastidores, houve quem defendesse que Flávio deveria desistir da candidatura diante da repercussão negativa do caso.

Apesar disso, pessoas próximas ao senador afirmam que sua estratégia permanece inalterada.

A avaliação feita pelo seu núcleo político é que basta superar a convenção partidária e chegar ao segundo turno. A partir daí, acreditam que a lógica eleitoral levaria praticamente toda a direita a unificar apoios em torno da sua candidatura, independentemente das polêmicas acumuladas durante a campanha.

Esse cálculo inclui nomes importantes do campo conservador, como Ronaldo Caiado e Romeu Zema, que, segundo aliados de Flávio, tenderiam a apoiá-lo diante da perspectiva de enfrentar Lula em um possível segundo turno da eleição.

Mas surgiu um novo obstáculo dentro da própria família Bolsonaro.

Michelle Bolsonaro, que também era vista como uma possível alternativa eleitoral — inclusive como candidata a vice-presidente pela chapa de direita — passou a demonstrar insatisfação com a consolidação do nome de Flávio. Pessoas próximas da ex-primeira-dama afirmam que ela se considera ter maior capacidade de preservar o legado político de Jair Bolsonaro do que o próprio filho do ex-presidente.

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Segundo relatos de interlocutores desse grupo, Michelle intensificou suas ações para evitar que Flávio chegasse mais forte à convenção do partido marcada para as próximas semanas.

Ainda segundo essas fontes, ela conta com o apoio político de nomes como a senadora Damares Alves e o deputado federal Nikolas Ferreira, que mostrariam reservas quanto à capacidade de Flávio representar plenamente o projeto político iniciado por Jair Bolsonaro.

Uma fonte ligada ao grupo de Michelle resumiu as críticas em uma frase que circula privadamente entre integrantes do movimento: “Flávio seria um Lula de direita”, em referência ao entendimento de que faria concessões políticas consideradas excessivas para conquistar e manter o poder.

Correspondente ou não à realidade esta leitura, é uma percepção que vem ganhando espaço em setores importantes do bolsonarismo.

Com isso, a batalha de Flávio Bolsonaro não é mais apenas contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Antes mesmo de pensar no segundo turno, seu principal desafio foi sobreviver politicamente dentro da direita e confirmar sua candidatura na convenção do partido.

Resta saber se conseguirá superar esta turbulência ou se acabará desistindo da disputa. Caso contrário, os críticos da sua candidatura avaliam que uma divisão prolongada no campo conservador poderia favorecer a reeleição de Lula em 2026.

Nota aos leitores: este artigo reúne análises políticas, reportagens de bastidores e informações atribuídas a fontes. As declarações sobre motivações, estratégias ou posições das pessoas mencionadas refletem avaliações dos interlocutores e não constituem fatos comprovados, exceto quando baseadas em declarações públicas.

Por Júnior Melo